A polêmica sobre o quesito 8.2

Ser um autor conhecido é diferente de ser um autor com dinheiro!

Quando concebemos nossas histórias, nos consideramos donos delas. De fato somos, mas, com o passar do tempo, quando o hobby se torna uma profissão, todo autor tem de tomar uma decisão importante que é:

“Ser conhecido ou ter dinheiro”

E não estou falando de ter um emprego paralelo, porque atualmente todo mundo tem de ter um plano B ou C. Mas sim de se tornar um autor conhecido através de concursos, editais e outras parcerias (geralmente não monetizadas) ou se aventurar em vendas por demanda, publicando de forma autoral ou com pequenas editoras onde, embora a venda seja menor, os ganhos são mais significativos.

Com estas duas partes estando compreendidas, vamos à real polêmica. Recentemente a JBC lançou as regras do seu concurso oficial: BMA – Brazil Mangá Awards, que você pode acessar clicando na imagem.

logo-bma-br

E é claro que uma editora grande, organizando um concurso desse tamanho, chama a atenção das diversas camadas de autores, desde os mais novos e sonhadores aos mais velhos, veteranos. No entanto, em alguns Fóruns e grupos do Facebook, o assunto se focou nas regras do concurso, especificamente no quesito 8.2 que vocês podem ler abaixo:

Os vencedores do “BMA 2013” firmarão contrato de Cessão de Direitos Autorais com a JB2S, a título gratuito, devendo para tanto, fornecer cópia do RG, CPF e comprovante de endereço, aceitando os seus termos sem direito a futuras reivindicações à JB2S, bem como também concordam em isentar a mesma e/ou qualquer empresa envolvida no “BMA 2013”, suas companhias coligadas, subsidiárias e afiliadas, inclusive seus respectivos funcionários, representantes, prestadores de serviços e agentes ou qualquer outra pessoa ou organização envolvida diretamente ou indiretamente a este “BMA 2013” de toda e qualquer demanda ou ação legal consequente de suas participações no “BMA 2013” ou recebimento e utilização de qualquer prêmio, com exceção daquelas relativas ao cumprimento, bom andamento e desfecho do “BMA 2013”.

fonte: http://www.brazilmangaawards.com.br/regulamento.html#regulamento-completo

Figura1

Resumindo, o autor cede os direitos de venda de sua obra, mas não vai ter nenhuma remuneração monetária ou ganhos futuros além dos já pré estabelecidos no edital do concurso. Mas então você pode pensar:

  • “Eu criei a história e não vou ganhar nem um bombom?”
  • “Meu trabalho! Minhas ideias! E não vou ganhar nada!?”

Costumeiramente todo autor tende a ser apegado aos seus trabalhos, às vezes mais do que deveria. Apegam-se tanto que se esquecem que a produção de um quadrinho é algo para o entretenimento de outras pessoas além de si mesmo. Não se surpreendam com esse tipo de quesito, pois esse tipo de colocação tem em praticamente todo concurso. Entendam que um concurso é diferente de um contrato direto, onde uma vitória em um concurso pode gerar futuramente um contrato direto mais rentável. Entretanto, a vitória em um concurso não é transformada em um emprego garantido.

futuramafry
Vamos ver os dois pontos!
  • Na situação da Editora, ao apostar em um trabalho 100% novo (como é o caso das histórias que participarão do concurso), além de lidar com o fato de ser um investimento de risco, pois ninguém conhece os autores e as histórias, todos os custos de impressão, divulgação e distribuição ficam a cargo da editora sem que o autor precise tirar um tostão do bolso.
  • Na situação do Autor, ao ceder os direitos de venda sobre determinada história ou capítulo não quer dizer que toda a ideia agora está presa à editora, mas sim aquele trecho em específico. Os direitos de venda são de uso da editora. Dessa forma, o autor tem essa publicidade sem tirar um tostão do bolso, mas também sem ganhar nenhum especificamente sobre esse trabalho.

Tem de se considerar que produzir uma história em quadrinhos não é barato. O custo do papel, o tamanho do volume, o número de páginas, o tipo de impressão, além dos custos de gráfica, de distribuição (que são os mais caros e os que mais influênciam no preço de capa), todos estes valores são significativos. Então parem e pensem sobre o quão arriscado é para uma editora apostar em novos talentos sem ter ideia do retorno que isso terá.

No mais, para o autor ficam apenas dois pensamentos:

1° Suas histórias foram produzidas pra serem deixadas na Gaveta ou para serem apreciadas por outras pessoas!?

2° Você quer ser um autor com dinheiro ou um autor conhecido?

Sempre pensem nos prós e contras das situações, tanto para você autor quanto para as outras partes envolvidas: consumidor e editora. Assim como não se apegar demais a ideias. Elas são como filhos, uma hora eles crescem e tem sua própria existência independente do seu controle. Apenas continue fazendo o que você faz de melhor, continue criando e produzindo.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Adriana Yumi disse:

    Ótimo post e boa reflexão sobre o assunto!
    O problema do pessoal aqui é que eles querem ganhar dinheiro com quadrinhos igual se ganha nos EUA, Europa e Ásia, sendo que aqui nem mercado nacional de quadrinhos ainda existe direito, então como vai ter toda uma infra-estrutura adequada pra pagar esse pessoal? Fora aquela ilusão que a pessoa tem que é querer ficar rico E famoso fazendo HQs.

    Espero que a primeira edição dê certo e que realmente o concurso venha a acontecer todo ano, mas isso não tem como prever, pois como foi abordado no post, eles vão lidar com um produto de risco.

    Acho que cada um tem que “se achar” nesse meio e ver o que acha melhor em termos de publicação de HQ. Se quer fazer algo sem que venham interferir em como vc faz a história, então tente algo por fora de editoras, publique online, faça venda em pequenas tiragens, etc. Agora também tem o catarse, que está demonstrando ser uma boa saída pra quem quer publicar sem auxílio de editoras.
    Mas se quer algo por uma editora, então você já tem que ver o público-alvo da mesma, e se for pra concursos, seguir as regras de formatação de páginas, se pode abordar qualquer temática, etc; aí já não pode fazer qualquer tipo de coisa, pois vc vai ter que adequar a história aos padrões da mesma. É que nem eu querer mandar um shoujo pro concurso da shonen jump LOL
    Enfim, excelente post e bem esclarecedor sobre o assunto!

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  2. gwy disse:

    Crowdfunding ainda é bem melhor que isto.

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    1. Studio PBR disse:

      Crowdfunding é assunto pra uma matéria a parte!

      Fizemos essa postagem pelo grande número de pessoas que estavam confusos com o edital do concurso em relação a esse ponto 😉

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  3. João Vitor disse:

    Geralmente quando se começa a vender o seu trabalho, você começa por baixo. Sendo um total desconhecido, mas acabar sendo um dos vencedores do concurso, já será um grande negócio.

    Além disso, na página de ‘Perguntas e Dicas’, eles dizem que o autor ainda terá direito sobre o mundo/personagens que criou, e a JBC só terá o direito de publicação da história/páginas enviadas. Sendo que (provavelmente) a grande maioria dos aspirantes a quadrinistas pensam em criar séries enormes, e como no concurso são de 24 a 32 páginas, o povo que queria publicar sua ‘série’, terá de repensá-la para se ajustar a isso, criando praticamente outra história.

    Mas o que o povo tá irado mesmo é por poderem participar somente maiores de 18 anos.

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  4. Fabio Gesse disse:

    Realmente o que mais ando vendo nas redes sociais é reclamação pela falta de retorno financeiro. Concordo plenamente com o texto da postagem. Não que eu prefira ser conhecido do que ganhar dinheiro com o meu trabalho. A questão é que se você for conhecido e for bom no que faz, o dinheiro é consequência. Então o primeiro passo é acreditar na iniciativa da JBC e entender o lado da editora que tá apostando fichas em artistas que eles nem sabem se vão ser bem aceitos pelo público. Tem que deixar a estrelinha de lado nessas horas e ser humilde o bastante para fazer parte desse movimento que tenta criar um mercado descente de quadrinhos por aqui.

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